dia mundial da alimentação - 16/10/2011

 


 

Banquete da Neka 


Às vezes é preciso um par de semanas para entender grandes acontecimentos. Foi assim que ontem, ao contar para uma amiga, assimilei a experiência de um jantar inusitado que fui sábado retrasado a convite da banqueteira Neka Mena Barreto. Eu a vi na sexta-feira, ela olhou pra mim surpresa, e perguntou: - O que você vai fazer amanhã à noite? Vem aqui pra um jantar? É um grupo de artistas...

Topei! No outro dia, quando estava dirigindo para o endereço do jantar me senti numa versão tupiniquim do “De Olhos Bem Fechados”. Mais pela situação de curiosidade, afinal estava guiando longe na Rebouças, nada que ver com aquelas cercanias tortuosas que o olhar de Kubrick retratou naquela que seria sua última e “semi-inacabada” obra. Mas meus olhos eram de encanto assim como os de Bill, personagem de Tom Cruise... Cheguei ao local. De pronto recebo a saudação da minha amiga guisandera Lourdes Hernández. Pra minha surpresa, além dela e da anfitriã, não conhecia mais nenhum dos cerca de 50 convidados.

Eram duas mesas dispostas paralelas, super arrumadas e decoradas com castiçais de muitas velas. Todo o piso estava coberto por pinhos. O aroma era de uma floresta úmida, me lembrou os ciprestes que circundam o Hotel Llao Llao na primavera em Bariloche. Sobre uma mesa de apoio haviam águas aromatizadas: de canela, ervas, com pedras de quartzo, suco de frutas exóticas, espumantes, vinhos. Eu levara pra minha anfitriã uma lembrança. Neka disse: - deixe pra depois, existe o momento certo pra eu abrir o presente... Ok!

Ela parecia ansiosa, e eu já mal esperava para ver o que iria acontecer. Eis que em poucos segundos tudo é fogo. Os garçons com longos espetos, num ritual quase medieval, vão ateando fogo em cada um dos 50 e poucos pratos dispostos à mesa, um aroma leve de ervas é sentido no ambiente. O silêncio é absoluto, e então só se ouve o tilintar do elemento FOGO. A guisandera hipnotizada, assim como eu e os outros convidados, comenta baixinho: - Este és el sonido del fuego! Espatacular.

Em alguns minutos aquilo cessa, e vamos à mesa. O banquete começa. Neka agora tira sons de taças de cristal, em poucos minutos ouvimos uma sinfonia contínua e aguda, ajudada pelo som das taças de todos os comensais... Depois uma pausa e nos chega um canapé, todo embrulhadinho. Dentro, nos revela a anfitriã: - Escrevi uma palavra que vale ouro para cada um, além disso, aí dentro há um pedacinho de um fio do meu cabelo que cortei em 50 e poucas partes, para que a minha energia contagie a todos... Ao ver minha surpresa a guisandera comenta baixinho: - É as pessoas comem tantas coisas, as vezes nem se dão conta, e o que é um pedacinho de cabelo?! Que fantástico.

O banquete era vegetariano, mas para começar um gaspacho perficiente ladeado por uma tira de jamón recém trazido da Espanha, este ela não poderia deixar de nos regalar. Depois veio um tronco de palmito pupunha assado, de interior tenro, enrolado num papel grosso que conservava todo seu calor e suculência. Depois levantamos, e nos deleitamos com mesa farta de deliciosas iguarias. Tão bonita e colorida, carregava enigmas de um hotel de Philippe Starck, senti ali a estética obcecada de Lars Von Trier, a diversidade da Mata Atlântica. A intensidade das possibilidades, saturação máxima das cores nos sentidos... Depois veio a orgia de doces, chocolates, bolo de tapioca, sorvetes, o melhor cheesecake: feito com iogurte e chocolate AMMA. Orgânico, benéfico. Daí, surge uma cantora lírica entre nós. Deleitou-nos com sua melancólica e pungente música. Café, pé-de-moleque... No final uma chuva forte caia lá fora. Ganhamos um sachê com húmus que serviu de alimento para minhas pobres plantinhas em casa.

No caminho de volta me veio um desejo especial e ingênuo de replicar. O banquete da Neka foi uma sessão de reiki para meu estomago e olhar. Foi comida de alma com ingredientes de verdade. Coisa contemporânea, que volta e meia acompanhamos nos jornais os Chefs escandinavos fazendo: plantar... colher sua própria comida. Uma beleza de cores do Le Jardin des Sens dos irmãos Pourcel. Sim!

Movido ao espírito de alimentação nutritiva e saudável, neste final de semana, dias 15 e 16 de outubro, assino cardápio do restaurante do SESC Pompéia. Busquei conceitos da utilização integral dos alimentos. Criei receitas com cascas, talos, brotos, tudo em função do Dia Mundial da Alimentação, que comemora a criação da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).

Neste Menu trago pratos da cozinha caseira, de ingredientes desprezados, preparos que amo e que valem a pena serem repetidos e degustados. Ganhei de presente uma receita de minha guisandera, receita da Dna. Vilma, mãe dela, uma das melhores tortas que já comi na vida.

Têm pratos com cereais, leguminosas, matos, brotos...

Enfim, que a energia plantada em mim, floresça em você. Alimente-se bem, basta querer!

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