Hot is Hot!

Sobre Comidas e Pimentas:

 


Pimenta. Não senti tanto ardor quanto no último dia em Delhi! Resolvemos conhecer um restaurante de comida Pan-Asiática (nunca tinha ouvido falar do termo que logo associei aos países panamericanos). É isso, comida da Panásia: é tudo aquilo que engloba: ingredientes, temperos, métodos de cocção e procedimentos de serviço, de países como: Índia, China, Tailândia, Vietnam, Nepal e até algum pé no Japão. Daí tinham pratos como: Pad Thai, ensopados e caldos como missôs ou galinha com coentro. Tinham os irresistíveis “ginsuns” à moda nepalesa (un poco mas grandotes, o que me lembravam os antigos guiozas da Liberdade). Ingredientes como: pato, crab, camarão de vários tamanhos, peixe, galanga (uma raiz prima do gengibre e da cúrcuma, mas mais perfumada), nam plá, óleo de mostarda, gergelim, shoyu, capim santo, arroz basmati, coentro...

Bem, isso é pouco, perto da variedade, do perfume, dos condimentos, das especiarias e claro do ingrediente que reinou, e que não se pode deixar de imaginar que exista quando o assunto é cozinha oriental: A PIMENTA (ou Chilli para mys amigos latinos)! Caracas, o capsicum, nas minhas pesquisas é um fruto que saiu das Américas, mais especificamente do bioma amazônico para se propagar por todo o mundo, e isso foi a pouco mais de 500 anos. O indiano tem o domínio do uso da pimenta, tal qual o mexicano,e isso não é novidade, quando comemos a comida desses países conseguimos sentir nuances de sabores: defumados, tostados, picantes, fortes, adocicados, advindos das pimentas. A verdade está, é provar a pimenta pra crer! Neste restaurante a experiência com pimenta foi incrível (para não dizer outra coisa), quase masoquista... Queimou a boca de todo mundo... não conseguimos provar o prato todo, mas nossa surpresa foi maior quando o garçon confessou que aquela comida estava pouco picante. Fiquei frustrado. - Peraí, eu to achando muito um prato que pra eles tem pouca pimenta. Isso não... Meu pai quase morreu. Num ataque de macho man ele não reclamou, mas depois contou que achou que ia ter um tréco!!

Minha irmã, coitadinha. A Inês tem a “língua geográfica” (nunca entendi direito, mas trata-se de uma língua mais sensível que o normal). Eu lembro que ela dizia-se alérgica a pimenta, e eu sempre tentava enganá-la, conduta de irmão mais velho e pimentinha que queria mesmo era “ver o oco” da irmã. fazê-la passar mal com chilli-pepper (hehe). Mas a Inês cresceu, se superou, veio morar na Índia sozinha, por um ano estava aqui, comeu muito prato picante. Sua língua, mais sensível que a dos demais mortais, já havia se controlado aos ataques violentos da capseisina... e Inês, que não é boba nem nada, foi a única da mesa que pediu o prato num alto e rápido golpe de inglês: - No Pepper! No Spicy! Sem Pimenta Sir!!! Pois bem, quando chegou o prato... Inês lacrimejava, abriu a boca, “sortô fogo, como o capeta!!!” Teve que comer arroz basmati branco, sem nada para deixar passar a picância. Ela, muito contrariada, chacoalhando as mãozinhas na frente da boca como um leque, recusou o prato de pad thai “sem pimenta” logo oferecido pela brigada. O garçon numa simpatia e paciência fora do normal, só encontrada na hospitalidade sistemática, embasada no antigo regime de castas indiana, trouxe, mesmo diante da recusa, outro prato para Inês. Este sim, um Pad Thai, sem nenhum traço, sequer, de pimenta (vale dizer que estava bom mas era quase um macarrão doce).

Eu... bem, minha cabeça suava (a careca na verdade), senti calafrios, minha boca parecia estar literalmente queimada. Lembrou-me uma situação quando era criança e na fazenda Santa Helena me “intoxiquei” num caso semi-fortuito de pimenta malagueta curtida em óleo, pelo capataz gourmet e carrasco, o Marcino, que me fez experimentar aquele fogo em formato vermelho (na ocasião tinha eu 11 anos, chorei e tive que tomar leite cru frio pelo resto do jantar e por um bom tempo da noite). Voltando ao Restaurant Emperor's: suei, comi, não passei mal, mas também não gostei... era um caranguejo com um molho espesso, o tal gravy ou curry, carregaaado de pimenta!

 Mas agora, no finalzinho da viagem, já voltando para o Brasil, sentado na poltrona da South African Airlines: comi um tal “frango ao curry” que deveria ser chamado de “frango ao nada”, cadê a pimenta, pô!!

 

 

 

 

 

 

Índia, um savoir-vivre:

O indiano em geral é magro, elegante, sorridente, simpático, ou não, com uma educação respeitosa e malandro, extremamente rápido, articulado, curioso e vidente.

A sujeira só incomoda a quem se incomoda. O modus vivendi não engloba uma vigilância sanitária a la ocidental. O povo aqui quando defeca se limpa com água. Raramente vejo papel higiênico no banheiro, a não ser nos hotéis 5, 6 ou 7 estrelas, verdadeiros oásis para ocidentais... O indiano usa as mãos, a esquerda para se limpar e a direita par se alimentar. Atenção a esta regra!

Os costumes são os mais diversos, sublimes e inimagináveis para o o mundo ocidental. As imagens pipocam na minha memória, a sensação do sentire a Índia é diferente se for feita a pé, de auto-riquixá ou de carro com ar condicionado. Sem contar o curioso Ambassador, que é um carro dos anos 60, lindo, que até hoje circula de milhares pelo país, sejam os táxis ou carros de governo e corpo diplomático. O ambassador é exclusivamente fabricado para o governo, e juntamente com o Peacock (Pavão); a Bandeira, o hino, a vaca (e otras cositas mas como: Gandhi, Bollywood, Chai, massalas e auto-riquixá), formam os símbolos nacionais.

Várias outras coisas são características da Índia, por exemplo o movimentar de cabeça, batizado por minha irmã de ”jigling”, só existe por aqui. O povo pra dizer que algo está bom dá uma chacoalhada na cabeça de lado a lado, de uma maneira nunca vista no ocidente. Quando minha irmã fez o ”jigling” pela primeira vez que vi, achei super esquisito, fiquei até com um pouco de raiva, achando aquilo uma modinha besta que a Inês estava tentando pregar (ano passado, estavamos em Londres na casa da minha prima Joana, e Inês estava super indiana, com roupas, pinturas de rena na mão e trejeitos típicos). Mas na realidade o ”jigling” também é uma característica do povo indiano. Um charme, uma belezinha... de Bollywood e comerciais de TV, ao povo nas ruas, maharajas... operários, mendigos, todos ”jiglinglam” - hahaah! E pega... é uma delícia “”jiglinglar”. Faz um charminho, uma virada meiga de cabeça. Se você estiver concordando com a pessoa que está conversando você balança a cabeça de um lado para o outro. Uma virada mais nervosa pode ressaltar uma sensação tensa, uma resposta positiva mas com uma leve sensação de contrariedade. Seja no trem, em Mumbai, Jodhipur ou Jaipur o balançar é o mesmo. Uma chacoalhada de cabeça pra lá e pra cá (que lembra aqueles cachorrinhos a venda em camelô, que tem a cabecinha solta chacoalhando, se não viu ainda, busque...) este chacoalhar de cuca é o antêntico “”jigling”! 

 

Prembaba e o Encontro!

Dia 18/03/10 – Rishikeshi


É manhã, um vento seco e agradável percorre o tortuoso relevo desta cidade sagrada que se encontra no pé dos Himalaias... Milhares de pessoas circulam pelas estreitas ruas a procura de um templo ou ashram para orar. Outras estão apenas observando, num voyerismo antagônico, pois a cada momento a troca de olhares se dá... todos cercados por muitas vaquinhas e touros anões, que zanzam pelas ruas como deuses que são, travestidos de uma carapaça de zumbi e de saúde debilitada pela má-alimentação que inclui restos de lixo e sacos plásticos.

 

O Rio Ganges ou a Ma ' Ganga:

 

Banhar-se no rio Ganges, esse era nosso dilema naquela manhã... chegamos numa parte dele, de aparência virgem, um pouco ao norte de Rishikeshi, no comecinho dos Himalaias. Sentíamos estar mais próximos da nascente daquele colossal rio. As primeiras montanhas crescem, grandes, imensas e imponentes. Rememoro imagens de filmes chineses onde o relevo era assim. A água é gelada, os três pulinhos são uma ordem, o desejo de voltar urge, e a esperança revigora... O banho na Ma´Ganga é benção inenarrável!

 

Visita a um Ashram:

 


Prembaba: dez e trinta da manhã.

O baba do amor, um guru brasileiro que vive alguns meses do ano na Índia. Sábio homem que largou a vida mundana para se dedicar aos ensinamentos sagrados, estava lá para nos receber... Descrevo abaixo alguns dos recados um tanto quanto óbvios porém indispensáveis e maravilhosos para levarmos a vida um pouco mais consciente:

“Devemos abrir canais para parar de alimentar o vício. É necessário encontrar a mudança verdadeira. Você está se movendo nesta direção? O auxílio faz você ter consciência daquilo que está te fazendo mal, pois uma parte está presa ao passado. O rompimento não pode ser de mentira. Não pode usar a máscara do indiferente. Eu estou livre... se estiver mesmo livre você não vai mais repetir o erro. A renúncia verdadeira é possível quando você sabe que está renunciando. Você deve identificar a origem do negativo e o que sustenta o condicionamento. Continue observando e verá que além existem sentimentos que estão sustentando o congelamento da imagem. Atravesse o medo, é ele o guardião desta esfera inicial!”

Abra mão dos pactos da vingança, trabalhe o yoga, cante, seja feliz! Que benção conhecer Prembaba, reverenciá-lo, compartilhar de seus belos ensinamentos com platéia tão positiva e bem-humorada e sentir a paz e o amor de seu ashram a beira do Rio Ganges, num belo dia de sol no Planeta Terra! Parecia um sonho, é um sonho real... maravilhoso, uma experiência cósmica que te faz sentir a alegria de estar vivo... Somos um só!!!

 

 

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